Sem-talentos procura-se
Logo logo não restará sequer uma criatura sem projetos no Brasil. Uma nação de artistas e produtores culturais. Como no conto “Dois Augúrios”, de Villier Adan-Lisle, encontrar um sem-talento será motivo de foguetório, mercadoria rara, lance inestimável, brindes ao infinito. Atenção sem-talentos, sem-cerimônias em geral, cartas e currículos para a posta restante deste escriba ibid idem.
Logo mais não teremos encanadores, bombeiros,eletricistas, bancários, pequenos agricultores, a boa gente do comércio, excelentes amassadoras de pães-de-queijo, exímios pontas-de-lança, mulheres prendadas, tapioqueiras, profissionais do lar... Apenas escritores, cineastas, praticantes da nanoarte (ah, você está por fora, trata-se da tribo da nanotecnologia, ramo da cultura digital que beira as raias da linguagem atômica), humoristas de televisão, críticos benjaminianos, pintores, tradutores, tribalistas, transgressores...
Para completar, viramos até pátria da ginástica artística, olímpica... Era só o que faltava para a nossa ruína!.
Ah, saudades da nossa vocação agrícola, dependente apenas de algum crédito público, meteorologia de adivinho e bravos homens do campo. O novo celeiro do mundo, calorias para todos, futuro à vera, “de pé, famélicos da terra!”
Agora até os nossos bons médicos são doutores de “Caras”....
Para completar o desastre histórico, como as mulheres têm queda para os homens-projetos! Assim como o pendor eterno, a asa quebrada pelos tolos.
Isso quando elas mesmas não se antecipam e inventam os seus arrazoados de arte. Cadê a gente normal, a missa, o Fla-Flu, o Sansão, o Grenal, o Ba-Vi, o Clássico das Mutidões, Santa x Sport, o Icasa X Guarani, o almoço de domingo, o “amor só de mãe” -como me venderam no aforismo do pára-choque mais afetivo?
Xico Sá
Escrito por Mara às 09h42
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