FRAGMENTOS DE DIÁRIO
me descubro e me assusto
metade cheio de nada, metade vazio de tudo
quando gritam atalhos no corpo
o medo é maior que a voz do vulcão
quando vem a vertigem do salto
causo desprezo ao vento, riso aos pássaros
não mais alcanço antigas ejaculações
com meus precários dentes sorrindo
estou cheio de páginas incompletas
e toda significação, afeto, desejo, mortos
hoje não passo de histórias e sobras de sanduíches
delírios despejados na porta dos fundos
monturo de intranqüilidades
e tudo não passa da própria vida contando palavras
nos bolsos furados da calça
tudo não passa da certeza
de que tarde demais me vi descalço
com a crueza do clima descascando a pele envilecida
Poema de Sandro Ornellas, do livro recém-lançado Trabalhos do Corpo.
Escrito por Mara às 20h33
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