Tire seu Rolex do Caminho que eu quero passar com a minha dor...
O dicionário Aurélio nos diz que pensamento é: "ato ou efeito de pensar, refletir, meditar. Processo mental que se concentra nas idéias. Poder de formular conceitos."
Nesta última semana o apresentador de TV Luciano Huck foi assaltado em São Paulo. Dois caras numa moto e armados com um 38 levaram o Rolex que ele acabara de ganhar da esposa. Ele então publicou na Folha de São Paulo (03/10/07-Tendências e Debates) um artigo intitulado Pensamentos quase póstumos. Na mesma Folha (08/10/07-Tendências e Debates) o escritor Ferréz publicou Pensamentos de um "correria".
A partir daí leitores passaram a enviar seus comentários para o Jornal que deu a eles o seguinte título: Huck X Ferréz. Então o Jornal publicava dia a dia tais comentários democraticamente distribuídos entre prós e contras Huck e Ferréz.
Eu cá com meus botões, um tanto anacrônicos, me perguntava o que está colocado aqui, Riquinho X Zé Galinha ?, Asfalto X Morro?, Caldeirão X Capão? E como minha estupidez não me deixa crer conclui, o espetáculo não pode parar. Os "Pensamentos" de Huck eram tidos como desabafo de um cidadão honesto e generoso indignado com a falta de segurança pública, os "Pensamentos" de Ferréz como apologia ao crime e glamurização dos bandidos. Ao fim e ao cabo a luta de classes (eu avisei que meus botões são anacrônicos) encerrava-se na fórmula Folhadesãopauliana de mocinho versus bandido.
Abusando do anacronismo de meus botões revejo Jean Baudrillard ( À sombra das maiorias silenciosas) "As massas são o 'espelho do social?'Não, elas não refletem o social, nem se refletem no social- é o espelho do social que nelas se despedaça."
A quem interessa esse simulacro de debate social? Esse esgarçamento de consciência social que passa pela benevolência da ONG que garante o bem-estar coletivo de 180, 200 pessoas, mas que para discutir 'segurança pública de verdade' clama pelo Comandante Nascimento do filme Tropa de Elite?
Mas eis que vejo a explicação de tudo no próprio Jornal "os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo". Ah bom!
Escrito por Mara às 12h26
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Tem dias que são assim...
Você acorda sentindo um tremendo vazio,
uma pena de si mesmo que não se pode evitar-
eu nem tento.
O maior sol janela afora
e você cá dentro esperando a chuva passar...
Levantar o copo de café é toda cumplicidade
que você consegue suportar.
De resto tudo pesa demais e faz sentido de menos...
Mara
Escrito por Mara às 12h24
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O texto que segue encontra-se no blog djalma-oliveira.blogspot.com
Escrito por Mara às 12h20
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Finalmente assisti ao tão badalado filme "Tropa de Elite", do cineasta José Padilha; baseado no livro "Elite da Tropa", escrito por um ex-policial do BOP da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro. Agora entendo porque algumas pessoas que sempre são questionadas sobre violência urbana se recusaram a falar sobre o assunto. O tema é delicado, melindroso; e o filme é realista, "à flor da pele", violento, mas de qualidade. O próprio diretor do filme foi estranhamente tachado de "fascista". A estória é cotidiana, alguns problemas urbanos são abordados na trama, sempre sob a ótica do narrador, um policial militar violento e incorruptível, que realmente acredita naquilo que prega. Concomitantemente ao lançamento do filme, uma polêmica interessante surgiu nas páginas do jornal "Folha de SP", o apresentar Luciano Huck foi vítima de roubo no bairro dos Jardins, na capital paulista, tendo seu relógio de marca "Rolex" subtraído, e publicou um artigo de desabafo sobre a violência que "assola" o país, e a necessidade de prender os bandidos, de se falar em segurança pública e, (suponho que num ato de desespero não justificado), chegou até a evocar o capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura no filme "Tropa de Elite"), para "acabar" com a violência nas grandes metrópoles. Alguns dias depois, o escritor Ferréz também publicou artigo na mesma "folha", criticando o discurso unilateral de Huck, e derramando uma enxurrada de realidade suburbana, da classe massacrada pelos consumidores de relógios e preciosidades importadas, posicionando-se do lado oposto ao do apresentador. Para variar, no resumo dos fatos, o discurso hipócrita prevaleceu: as razões do escritor não foram sequer ponderadas; e a pretensão do cineasta descaracterizada. O apresentador Luciano Huck foi reverenciado como o abastado que tem o direito de ser rico, pois conseguiu seu patrimônio com esforço e honestidade, e o máximo que recebeu de crítica foi a alusão ao "riquinho esperneando porque perdeu seu brinquedo".
Escrito por Mara às 12h18
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O cineasta José Padilha foi "classificado" como defensor de ideais da direita que justifica as atitudes repressivas e violentas da polícia, e vez por outra foi elogiado pelo bom filme. E o escritor Ferréz, por sua vez, foi linchado publicamente, acusado de ser defensor de bandido, inconseqüente, destruidor do estado de direito. O "patrulhamento", ávido por catalogar cada um no seu devido lugar não tardou, e a tropa da elite bradou em plenos pulmões: rico é rico, pobre é pobre, bandido é bandido, e filme tem que ter final feliz. Muito cômoda é a posição da elite neste país, a qual disseminou um bom número de discursos prontos, chavões, frases de efeito, e deitou em berço esplêndido, olhando de cima o "debate de uma nota só". Voltando ao filme, o mesmo deixa clara a necessidade de discutir a possibilidade da descriminalização das drogas, visto que a erradicação é uma utopia. O tráfico de entorpecentes é um grande negócio, como a comercialização de bebidas alcoólicas e de cigarros. Grandes conglomerados enriquecem vendendo bebidas e cigarros, com publicidade em horário nobre, passando a imagem de substâncias que o ajudam a relaxar após a correria do cotidiano de luta, sempre ao lado de mulheres bonitas e rapazes saudáveis; ocultando os males causados por esse "prazer".
Escrito por Mara às 12h17
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A droga é associada ao morro, à favela e ao cortiço, cercada de "magrelos" sem camisa, portando armas pesadas; e seus consumidores às pessoas perturbadas, perdidas, viciadas. Convenhamos, o efeito é o mesmo, o malefício é o mesmo, o dinheiro arrecadado é o mesmo, porém, por tratar-se de coisa ilícita, proibida, a droga alimenta outro micro-cosmo, onde os atravessadores usam de métodos violentos para se estabelecer, mas não menos imorais que os outros. Esse comércio velado deságua em outros males como a indústria da punição, a inutilidade do sistema penitenciário, o preconceito sofrido por moradores dessas áreas de tráfico, etc. No filme, a "guerra retratada" é causada e combatida pela mesma polícia. O traficante ocupa um espaço negligenciado pelo estado, que intervem para se beneficiar do próspero comércio de drogas ou para reprimir e moralizar, mas nunca para suprir as necessidades dos desfavorecidos. Isso foi mostrado pelo diretor do filme, e precisa ser explicitado muito mais, pois existem várias e paradoxais intervenções estatais, e diversas incorreções nessa nossa sociedade multifacetada.
Escrito por Mara às 12h14
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Contudo, classificar o cineasta de fascista é no mínimo impróprio. Outro ponto é aplaudir o desabafo do rico indignado que teve um súbito contato com a violência, e execrar o também desabafo do periférico que sente na pele diariamente a violência. Usar da força e da ameaça para tomar um objeto caríssimo, que daria para comprar mais de uma casa na periferia, e sustentar uma família pobre por alguns meses é ilegal; mas usar no braço alguns anos de salário da média de todos os trabalhadores do país é imoral. Para posar de vestal que ajuda os pobres é preciso ter consciência social, não apenas usando uma parcela de seus vultosos lucros para manter uma instituição de "caridade", mas tendo conhecimento do que faz o despossuído se sentir mal, de fora da sociedade de consumo. É não contribuindo para a erotização precoce das crianças dos subúrbios, com suas "Tiazinhas" e "Feiticeiras", que reduzem as mulheres a meros bibelôs sensuais. É não expor os necessitados a situações constrangedoras em troca de alguns trocados, em quadros do seu programa semanal, mantido à custa de polpudos contratos de publicida
Escrito por Mara às 12h13
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Conheço a obra do escritor Ferréz; do livro infantil Amanhecer Esmeralda ao romance Manual prático do ódio. Acompanho sua luta na idealizada revolução literária. Esporadicamente leio seus artigos publicados em algumas revistas. E nunca o vi prestando um desserviço social, pelo contrário, ouço apenas mais uma voz resistente, altruísta, às vezes equivocada, remando contra a maré, fugindo do recrutamento da elite. Porém, o essencial de tudo isso, é permitir o debate desinteressado, isento, não obtuso, onde cada indivíduo possa "olhar com olhos livres", e refletir sobre esses temas polêmicos que indiretamente direcionam nossas vidas e interferem no nosso cotidiano, não aceitando o "entendimento pronto" que lhe empurram garganta abaixo. Afinal, para bom entendedor, um risco quer dizer Francisco, ou Luciano, ou Reginaldo, ou Padilha...Em tempo: segundo o dicionário Aurélio: "elite: s.f. O que há de melhor em uma sociedade ou grupo; nata; flor. Minoria prestigiada e dominante no grupo, constituída de indivíduos mais aptos e/ou mais poderosos. Até breve!
Escrito por Mara às 12h13
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