DEVIDAMENTE TUNGADO DO BLOG DE LUANA VIGNON
Ouço o asfalto estralando debaixo da sola do sapato. Ela se foi como uma nota desafinada de blues. Reverberando. Entrei no ônibus no mesmo instante em que saiu uma senhora. É incrível como sempre tem alguém partindo. Deixei a porta aberta, pro caso dela voltar, ela sempre volta. A noite passada eu rachei uma garrafa de conhaque na cabeça dela, saiu sangue pra caralho. Chorou pra diabo a desgraçada, “seu escroto filho da puta!”. Vestiu o sobretudo cinza e saiu pra rua. Ela fica linda nessas noites de inverno, usando o sobretudo cinza e um coturno velho, com o couro puído e a ponta toda estourada. Desci no boteco do Mauro, ela não tava mais lá. “Porra, Mauro, cadê a vaca da minha mulher?” “Não faz meia hora que saiu com o Eltão”. Devia estar linda com aquelas olheiras combinando com o sobretudo, toda acabada; eu gosto do jeito que ela anda, do jeito que meche as ancas, do jeito que masca chicletes e arruma o cabelo com os dedos trêmulos. Ontem à noite eu tive uma visão, eu queria descolar um carango, dar um role em Vegas, gastar todo o meu dinheiro e fazer um filho nela, “mas você não tem a porra de um cent, seu idiota”, foi o que ela me disse. Acontece que ela devia saber que nunca se chama um homem de idiota, ainda mais quando ele tem uma garrafa vazia nas mãos. Eu era o homem dela, daquela vadia. Vai ver ela nem volta, vai ver o corte foi mais fundo dessa vez, vai ver ela sacou que eu sou mesmo um escroto filho da puta. Voltei pra casa e desabei no sofá, nem escutei quando a campainha tocou, nem sei porque fechei a porta dessa vez. Amanheceu e ela estava lá, encolhida no tapete com um cigarro apagado na mão, “resolveu voltar, minha putinha?”, “voltar o caralho, vim buscar minhas coisas, to me mandando pra Vegas com o Eltão”. É incrível. Tem sempre alguém partindo. E eu pego outra garrafa de conhaque no armário, penso que a gente sempre está começando outra vez. Enquanto eu ouço os cacos de vidro me furando as solas dos pés, ela desce calmamente as escadas e pisa no chiclete mascado que vai ficar grudado uma cara na minha memória.
Escrito por Mara às 17h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
"Estão escondendo os corpos porque é tudo execução"
Em entrevista à Carta Maior, o escritor Ferréz denuncia onda de matança na periferia: "Estão escondendo os corpos porque é tudo execução, com tiro na cabeça. Hoje os policiais estão desfilando aqui na rua com toca ninja e camisa Le Coq, que é um grupo de extermínio da polícia".
Escrito por Mara às 19h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
VAMOS CONTRA-ATACAR TUDO ISSO COM POESIA!

POEMA FRÁGIL
quero experimentar no seu corpo
todos os lugares do mundo
tem sido assim quando não sei
aonde você está
e pergunto
se este desejo intangível
frágil como pele de maçã
é suficiente para que me sinta
ainda, como a mulher dos sonhos
se for para me afastar da realidade
ou decidir se me devolve à bruma
serei, antes de ser mulher,
uma tênue presença perdida
ou um achado que escapa
entre seus dedos
apenas a dois passos
da felicidade
Célia Musilli
Escrito por Mara às 07h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|

Paulo Stocker
Escrito por Mara às 07h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
E a vida começa a voltar ao normal nas cidades do estado de São Paulo. Os ônibus circulando atrasados e lotados, as agências bancárias com suas filas intermináveis e funcionários com sorrisos de plástico, as dondocas curando o estresse nas Daslu, os presos ordeiramente amontoados em suas celas em seus discretos uniformes amarelo rebelião; a mídia colhendo as pérolas quatrocentonas do sr. Cláudio Lembo, as periferias em seu devido lugar e a polícia dizendo que já podemos sair de casa pois eles têm tudo sob controle...
Escrito por Mara às 07h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
E O MÁRIO ACERTA O ALVO NOVAMENTE . . .
NÃO VOU MORRER NA MINHA KITCHENETE
A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcou nas últimas semanas foi justamente a frase de Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: “O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários num país como o Brasil”. Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir à um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve. E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os buzões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma. E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido? Faz a autópsia da situação, Brother. Com atitudes meia boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e serem donos de suas próprias vidas. Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que eu acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada? Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso. Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele junto comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não há nada que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca.
(Mário Bortolotto)
Escrito por Mara às 14h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|