
Laila
Ela vinha descendo a rua, totalmente movida pela inércia daquele dia que havia nascido pela simples repetição do nascer dos dias. Na boca restavam ainda o gosto da cerveja quente, do cigarro e de porra. Lembrou de um filme em que o cara decide beber até morrer. Pensou que a vida podia machucar bastante...
Sentia nas roupas uma porção de cheiros. Não podia se lembrar dos rostos, mas aqueles cheiros todos tinham algo de familiar, assim como, suas risadas vazadas de medos e de éter.
Entrou num boteco. Precisava dar a tão adiada primeira mijada do dia e, retocar o batom. No balcão um bocado de sujeitos mal encarados faziam questão de piorar o seu humor.
O cubículo parecia uma daquelas solitárias de presídio, mas com o peculiar cheiro de absorventes sujos e colônia vagabunda. Bem à sua frente uma barata em pleno processo de decomposição. Em cima da privada um aviso, “não esqueça de dar descarga depois de usar o vaso sanitário”. Piada, alguém conseguia chamar aquilo de vaso sanitário. Uma coisa sempre lhe chamava a atenção nessas espeluncas, o espelho partido e o sabonete cor-de-rosa. Alguém ainda conservava o senso de humor.
Pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro. Não tirou os óculos escuros. Não queria sair da penumbra. Também não respondeu as perguntas cretinas do cara do balcão. Acompanhava com olhar fixo e ausente o desenho da fumaça do cigarro. A vida tinha aprimorado seu olhar altista. Pensava em descolar uma grana e cair fora da cidade, pensava em cenas de velhos filmes. Certas coisas são recorrentes...
Escrito por Mara às 21h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Pagou a conta, saiu pelas ruas. Por alguma estranha razão o sol não a incomodava naquela manhã. Avistou um bando de moleques seguindo pra escola. Riam e gritavam bobagens freneticamente. Sem saber porque ela sorriu. Mais adiante um velho revirava o lixo é, a vida não dá tréguas... Chegou em casa. Acendeu outro cigarro. Ligou o som. Deitou na cama e ficou mirando o teto. Ultimamente essa era sua grande especialidade.
Pegou um pedaço de papel. Tentou escrever, não era boa em encadear palavras com algum sentido. Lembrou da mãe, que antes de sumir de vez, insistia para que ela estudasse, pra que tivesse uma vida melhor que a sua. Ela achava que a mãe não tinha vida nenhuma.
Levantou-se. Resolveu fazer um café. Só encontrou cerveja. Certas coisas são recorrentes. Voltou pra cama, pro teto, pras cenas de velhos filmes, dormiu.
Quando acordou já era noite, mas avistava o teto com nitidez de especialista. Trocou de roupa. Refez a maquiagem e saiu.
Tinha um ar fresco na rua. Por um momento pensou em ser feliz, mas logo esqueceu a idéia, não saberia como começar. Parou num viaduto. Encarou a cidade, assim, do alto. Pensou em voar. Abriu os braços. Ergueu os pés. Dobrou o corpo. Sentia o vento nos cabelos. A noite tinha um cheiro novo. As luzes lembravam cenas de velhos filmes. Voar sobre a cidade... de repente tudo perdeu som, emudeceu. A cidade não tinha nenhum movimento, nenhum cheiro.
Abaixou os braços. Seguiu. Entrou num boteco. Pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro. Dessa vez deu falsa atenção às perguntas cretinas do cara do balcão. Pensava em cenas de velhos filmes. A vida é recorrente.
Escrito por Mara às 21h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
MAIS UM PUTA TEXTO DO MÁRCIO AMÉRICO
WALK ON THE WILD SIDE
Às vezes eu paro tudo que tô fazendo e olho pra minha memória, dou uma geral como uma velha faxineira em seu último dia, vasculho tudo. Sempre me deparo com uma imagem: eu, sozinho, de madrugada, caminhando pelas ruas de Londrina, a chuva como napalm. Lembro de imagens que me acompanhavam neste tempo. Uma selva vietnamita em chamas ao som dos Doors, um jovem atirando-se de cabeça num lago e saindo de lá me desejando um feliz ano velho, James Dean morto em cuba, um garçom me oferecendo sangue de coca cola, garotas do Mãe de Deus sentadas nas escadarias escondendo a calcinha dos meus olhos, o último ônibus partindo e a chuva. Era um tempo em que eu desejava morar num velho prédio de inquilinos derrotados, bebendo com um carteiro metido a poeta, quando eu só queria uma máquina de escrever emperrada pela areia do deserto de Mojave e Santa Ana, uma carta de minha mãe rezando alone numa cidade coberta pela neve. Lembro claramente da enxurrada entrando em meus sapatos furados e eu desejando uma moto e uma free way qualquer, um magnum 44 pra apontar pro espelho e dizer: are you talk to me? Me via um boxer gordo e orgulhoso demais pra encarar a lona, um garoto jogado numa prisão agrícola comendo ovos cozidos numa aposta maluca. A chuva não pára. Molhado, eu caminhava pensando em ligar pra ela. Nunca ligava. Um parnasiano apaixonado e indignado por não saber os meandros da sedução. Atrapalhando-me com as palavras, dando bandeira em coquetéis enquanto ela caía fora.Pensava em poemas mortos, em pop stars gordos, barbudos, entrando numa banheira suicida em Paris, num irmão distante precisando ouvir de minha boca uma frase que nunca saía. Sempre gostei de andar sozinho, à noite, na chuva. Podia me ver numa cidadezinha, num pequeno aeroporto simulando uma despedida com classe e remorso, podia me ver enfrentando um barman gordo e sádico a troco de um gole, de um misto quente. Agora estou em casa, protegido da chuva, eu a vejo da janela, no aconchego, agora tenho com quem conversar em silêncio. Não tenho mais uma Olivetti, não troco papéis ou escuto reclamações do barulho das teclas ensurdecendo meus pais. Olho no espelho e parece que vejo um cantor de rock’n roll inchado de medicamentos suspeitos, prisioneiro de um coronel sem farda, um samurai empunhando inutilmente sua desonrosa bokan. Não me chamam pros bares, não preciso mais andar a pé. Parece que naquela noite havia uma orquestra invisível me acompanhando, detonando árias ensurdecedoras, Dvorak. Não tem mais chuva. Não há mais brigas nas calçadas, não invado casa de amigos e nunca mais vi uma arma apontada pra minha cara magra e ossuda. Tento recuperar aquela noite, o que sobrou dela, dos amigos que antecederam aquela caminhada, da prosaica ficha telefônica, do anacrônico LP sob o braço endereçado a uma reconciliação desejada e inevitável. Parece que estou exilado, uma ilha de Santa Helena financiada pela caixa econômica federal. Eu sei que não morri, ainda estão rolando os dados, o traidor não vai se enforcar, e não haverá bandeiras desfraldando-se, mas eu insisto, abro a geladeira de madrugada e faço um piquenique com meu cachorro, ela me chama. Salvo mais uma vez. Há momentos em que penso em voltar pra chuva, sair lá na rua, chutar algumas poças, esmurrar orelhões, assaltar um carrinho de cachorro quente, mas os tempos são outros, e tem sempre alguém me dizendo: não esqueça de levar o guarda-chuva.
Escrito por Mara às 14h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|