Lado B


DA ARTE DE RECUSAR ATALHOS E EVITAR CONGESTIONAMENTOS

A intolerância opta pela auto-estrada, e trafega em alta velocidade na peça “A Caminho de Casa” do Grupo Armazém (que já foi de Londrina e hoje é do Rio de Janeiro). Guarda semelhanças com o ótimo “Crash” de Paul HaggisÀs vezes é preciso um bom encontrão para lembrarmos que estamos vivos”. Obriga convivências em um congestionamento. Aproxima um garoto solitário de um velho “monge” turco e promove um pequeno happening no meio da turbulência embalados por “Don´t Worry be Happy”. Como se você apertasse o pause no momento de socar seu oponente e sua mãe travestida de anjo assoprasse em seu ouvido no momento exato “Engana o olho, Filho. Engana o olho”. Don´t Worry be Happy. Não existem códigos secretos na nova peça do Grupo. A dramaturgia de Mauricio Arruda Mendonça (em parceria com o diretor Paulo de Moraes), cada vez mais poética, não nos deixa no escuro em nenhum momento. Escorada em Cortazar ou em Schimit, o que fica é a obra limpa e franca da dupla de dramaturgos. Como sempre, o ótimo elenco cumpre a risca e de maneira praticamente irrepreensível as marcações exatas do Diretor. É também uma oportunidade rara de poder ver nos palcos paulistanos uma das maiores atrizes do teatro brasileiro (só não é conhecida pelo grande público porque optou lucidamente – alguns diriam “corajosamente” por uma carreira essencialmente teatral – posso estar errado, mas que eu saiba, ela só tem um trabalho fora do teatro – um curta metragem – com o seu trabalho devidamente premiado) que é Patrícia Selonk. A terceira cena (um tanto quanto excessiva) mantém o seu interesse ancorada principalmente na interpretação técnica e esmerada (sem perder o ingrediente de comoção) de Patrícia.

Simone Mazzer e o surpreendente e carismático Thales Coutinho (com timing exato) constroem com perfeição a cena da amizade do velho Sufi e do menino Judeu. Destaque também para a puta espanhola de Raquel Karro numa cena engraçadissima.

Em busca de um Deus que parece entretido com outras prioridades, os personagens aflitos, mas sem perder o humor, parecem mesmo gritar a todo instante : “E aí, Deus, como é que fica?”Aliás, esse me parece ser o grande questionamento que costuma vir a tona de tempos em tempos, principalmente pra quem não lucra com a fé alheia. Ao final do espetáculo, a rapaziada que foi comigo sentenciou: “Qual é o problema com Londrina? Lá em vez da rapaziada ser obrigada a servir o exército, eles são obrigados a ir pro seminário?

Os achados cenográficos são um espetáculo a parte. Só vendo mesmo. Alguns cenógrafos paulistanos, incompreensivelmente festejados por aqui, tem muito o que aprender com Paulo de Moraes e Carla Berri.

E o que fica na cabeça ao final do espetáculo, por mais importantes e oportunas que sejam as questões levantadas e o texto contundente e poético, são justamente os momentos de solidão e silêncio. As luzes dos faróis dos carros. Cada qual com sua reserva inegociável de solidão, com os narizes enfiados em seus próprios problemas como um relojoeiro meticuloso que não pode se distrair com o tic-tac ininterrupto dos outros relógios. O que fica é o que não foi dito, mas ao soltar o “pause”, talvez nosso nariz se comprima contra o painel do carro. A explosão pode ser inevitável, mas ainda é possível escapar, talvez evitando atalhos, talvez sem nenhuma pressa de chegar a lugar nenhum.

A Caminho de casa

Sexta : 21h

Sábado e Domingo : 20h (Até 13 de Novembro)

Sesc Belenzinho – (Estação Belém do Metrô)

Av. Álvaro Ramos, 915 – Tel : 6602-3700

Aproveitem também para adquirir DVDs com outras peças do Grupo: “Da arte de subir em telhados”, “Alice através do Espelho” e “Pessoas Invisíveis” (brilhante adaptação dos quadrinhos de Will Eisner)


escrito por Mário Bortolotto.

Vi esse grupo nascer em Londrina com o nome de "Bombom pra que se pirulito tem pauzinho pra chupar" já eram bons hoje~como "armazem" são estonteantes. Confiram com seus próprios olhos e outros sentidos.



Escrito por Mara às 12h43
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UM DIA A BOMBA EXPLODE 2

Diário de um ventríloquo encurralado

 

 

Cruel. Ela não sabe nada sobre o que é ser cruel. Ela quer acompanhar o ritmo do mundo e não percebe que no fim só restarão naufrágios.

 

The future is uncertain and the end is always near.

 

Talvez o descompromisso dos andarilhos seja a única saída.

 

Eu também tenho visto, Allen Ginsberg, as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura.

 

Eu tenho olhado de perto a loucura. Eu tenho dormido com a loucura.

 

Eu tenho levado a loucura pra passear nos finais de semana. Eu a levei ao cinema para assistir Passageiro, profissão repórter.

 

Os olhos se cansam de olhar a mesma paisagem de ferros, vidros e concreto. Algo está secando as paredes dos meus pulmões. Algo está me sufocando.

 

Agora deram de roubar minha voz. Estão me deixando cada vez mais mudo.

 

Não me importo. A voz não me faz falta.

 

Sei quem são eles. Eles pensam que não, mas eu sei. Estão todos bem vivos na minha memória.

 

Eles vão pagar caro pelo que me fizeram.

 

Um deus cruel está chegando. Já ouço seus passos dobrando a esquina.


   Ademir Assunção

Escrito por Mara às 13h25
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UM DIA A BOMBA EXPLODE

Diário de um ventríloquo encurralado

 

 

Você estica o arco até o limite máximo de tensão, depois solta. Se não soltar, a flecha vai cruzar o ar do mesmo jeito. Vai rasgar a pele do oxigênio. Pode ser que acerte alguém. Pode ser que acerte em cheio o peito de alguém. E nada poderá ser feito se o arco atingir o limite máximo de tensão.

 

É assim que me sinto há dois anos.

 

Tem duas cabeças de bacalhau apodrecendo na geladeira. Não tenho ânimo para jogá-los pro gato. Não tenho gato.

 

O sexo virou uma alegoria esquizóide, pálida como a face de uma garota morta. Uma foda de 20 em 20 dias. Mal dada. Chata e burocrática como a foda triste de dois anões com pele de plástico.

 

Às vezes pressinto um anjo às minhas costas. Qualquer dia vou convidá-lo para tomar um café comigo. Se o cara for legal, talvez até divida minha cerveja com ele.

 

Quero meu entusiasmo de volta.

 

Mulheres deveriam sacar que na cama são todas putas. Quem quer foder uma santa?

 

Quero que os poetas se fodam. Se lambuzem em porra e sangue de menstruação. Liquidem com as metáforas, comam o cu das musas e escrevam algo que preste.

 

Alguma coisa está se quebrando.

 

Vou me trancar cada vez mais dentro de mim mesmo. Até sumir do mapa. Até me transformar num mapa do tesouro nas mãos de um tuaregue maluco. Somente o deserto e a desolação pela frente. Que os urubus se divirtam. Eles também devem ter sua vez.

 

Quero meus poemas de volta.

 

Estou indo até a esquina buscar a cano-curto que mocozei no bueiro.

 

É bom limparem a área antes que eu volte.

 

                       (Ademir Assunção



Escrito por Mara às 23h00
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Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,

fases de vir para rua...

Perdição da minha vida!

Perdição da minha vida!

Tenho fases de ser tua

tenho outras de ser sozinha.

    (Cecília Meirelles)

 

 



Escrito por Mara às 22h44
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Escrito por Mara às 14h43
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