Lado B


 

    Sim, estou com saudades de escrever aqui, de visitar o blog de amigos, mas tenho trabalhado pra cacete. Não reclamo, escolhi a opção "enlouqueça de tempos sem tempos", logo volto pra minha cozinha e faça uma pá de bolos de chocolate. É só o que dá por hoje e pelos próximos dias...



Escrito por Mara às 22h48
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“Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante,

Que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor:

Ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.”

                                  Padre Antonio Vieira, sermão do Mandato

 



Escrito por Mara às 20h19
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Ontem estava revendo aquela edição da BRAVO em que eles fazem uma lista dos 100 livros essenciais da literatura mundial e me deu na teia fazer minha lista dos livros essenciais. Nada assim amparado pelos paradigmas da crítica literária, jogo de memória... Livros que pelos motivos/razões mais variados, alguns decifráveis, outros não, foram (é, são) essenciais para mim. Quem quiser que faça a sua. Na ordem que quiser, com o número que quiser, quando quiser...

Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu); Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector);Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley); Pergunte ao Pó (John Fante);Memórias Postumas de Brás Cubas e Dom Casmurro(Machado de Assis); Decameron (Boccaccio); Anna Kariênina(Leon Tolstói); O crime do Padre Amaro (Eça de Queirós);O vermelho e o negro (Stendhal); Macunaíma (Mário de Andrade);Metamorfose (Franz Kafka); Crime e Castigo (Dostoievski); Mamãe não voltou do supermercado (Mário Bortolotto);Cartas na rua (Charles Bokovski); As Vinhas da Ira (John Steinbeck);Ninguém escreve ao coronel (Gabriel Garcia Marquez); Incidente em Antares (Érico Veríssimo)...



Escrito por Mara às 18h55
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Morreu ontem aos 81 anos um dos grandes porra loca desse planeta. Porra loca no sentido anos oitentistas do termo, que fique bem claro. Roberto Freire, o anarquista, não seu homônimo comunista. Lembro-me que certa vez, numa aula de ciência política na UEL, estava eu a ler Sem tesão não há solução, ignorando por completo o discurso reaça da profa. Maria Lucia Vitor Barbosa, quando esta olha para mim e dispara “minha filha esse cara é o último suspiro da menopausa do comunismo”. Claro que depois dessa eu não fiz a mínima questão de dizer que se tratava do anarquista e não do comunista, bobagem...

Meu primeiro contato com seus livros foi ainda na adolescência com Cléo e Daniel. Pirei naquela história que invertia toda a coisa mórbida de Romeu e Julieta e ao fim de tudo te dizia siga apaixonado se a paixão acabar continue seguindo. Depois vieram Coiote, Ame e dê Vexame, Utopia e Paixão, Sem Tesão não há Solução. Como bem definiu Célia MusilliNa sua concepção anarquista, o tesão é um estado de espírito que extrapola o sentido sexual para adaptar-se a qualquer situação que nos dê prazer. Seu maior desejo era dar às pessoas as condições necessárias para que não se submetessem a regras que nos condicionam a agir como animais em rebanhos, sem vontade própria e expressão original. Em resumo, viver deve ser um ato criativo. Suas teorias libertárias fizeram a cabeça de algumas gerações embaladas pelas palavras de ordem: “Ame e dê vexame.” Para ele nunca existiu fórmula mais revolucionária do que o amor, sentimento pelo qual vale a pena correr todos os riscos.”

Arriscar era tudo o que nós oitentistas queríamos, e ainda queremos. Com a SOMA, terapia que ele criou, tomei contato em Londrina quando a convite do departamento de jornalismo da UEL ele passou uma semana fazendo umas oficinas com a gente. Que loucura...

Já faz um tempo que não pego seus livros, talvez hoje já nem tenha saco para relê-los ou não, mas isso nem é o que mais importa.


 

 

 

                                                    



Escrito por Mara às 10h49
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Tenho apenas uma pequena porta por onde passar,

então vou pela janela.

prefiro alguns cacos de vidro às ínfimas possibilidades.

                                                                  Mara



Escrito por Mara às 10h40
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ABRA A PORTA PELA MANHÃ

E entre. Conte-me. Fale como foi tudo: a festa, a rua, como são as pessoas agora? Ainda têm olhos? Têm cérebros os desgraçados? Ainda têm aquele buraco quase no final da cara por onde falam mal de mim pra você? Por onde concordam em me desatinar? Eu continuo superior, é claro, quase comprei um apartamento dois andares acima para ficar ainda mais longe e poder ignorar e injustiçar a todos. Ah, que delícia, a injustiça! A vingança é um pratinho frio bem mixuruca perto da injustiça, que fumega aromas e sabores. Esganada, engulo sem mastigar. Depois choro, com a língua e céu da boca queimados. O rancor é morno, mas a injustiça é ao vivo. É na hora, e é quente, só falta a manteiga, que também me foi proibida. Escute, é por isso que me tranquei. Porque é melhor aceitar toda a espécie de proibição do que se rebelar. Resignar-se é ser cuzão? Trancar-se em casa e dar um jeito de ser melhor do que toda a merda que te espera lá fora é uma espécie de covardia? Se for, decidi experimentar. Eu que sempre tive coragem, mas só isso, quero agora as benesses da covardia e da vaidade. Escondo-me aqui. Abra a porta.

                                                                 Fernanda D'Umbra


Escrito por Mara às 10h35
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Escrito por Mara às 10h32
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                                                               Ando sem tempo de escrever por aqui, por isso deixo vocês

                                                               Em boa companhia.

 

                                                                                                                         Bolinhos de vento

                                                                                    Pegue um lápis e marque um ponto

                                                                                      No centro de uma folha

                                                                                  A solidão é tudo o que está em volta.

                                                                                                                                   Alice Sant’Anna

 



Escrito por Mara às 17h34
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Do lado de cá da cidade faz muito frio. Talvez por isso os amigos  bebam demais.Talvez por isso eu sempre cruzo as figuras do cinema. Do lado de cá da cidade existem acordos fraternos, talvez por isso as pessoas estão sempre magoadas umas com as outras, e choram tanto, e escrevem o nome das outras pessoas em folhas amareladas de cadernos, e bebem tanto. Do lado de cá da cidade nunca faz sol. Talvez por isso tantos blues, tantos blues, e a garrafa de café sempre vazia, os dedos calejados da máquina de escrever, e o copo de gin pela metade. Do lado de cá da cidade chove todas as noites, talvez por isso as pessoas tenham tantas idéias mirabolantes e irrealizáveis, talvez por isso as mesas no bar estão sempre reservadas, talvez por isso eles bebem tanto. Do lado de cá da cidade faz frio, existem acordos fraternos, nunca faz sol, chove todas as noites, as pessoas bebem demais, e são todas muito sensíveis. Eu já estive uma vez do outro lado da cidade, só uma vez.

                                                             Mário Bortolotto

 

 



Escrito por Mara às 09h13
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Só por ter no elenco Paulo César Pereio, Selton Mello, Zé Celso Martinez Corrêa, José Dumont o filme já tem meio caminho andado comigo, mas Árido  Movie vai muito além. Lirio Ferreira nos faz viajar por aqueles velhos (mas não superados) dilemas pindorâmicos: somos feudais, modernos, contemporâneos ou só pecamos sem culpa embaixo do sol?

É claro que somos tudo isso ao mesmo tempo agora, até aí nenhuma grande novidade pra um país miscigenado que reúne Suíça e Somália no mesmo cartão postal. O que mais pega em Árido Movie  é a maneira a um só tempo sutil e atormentadora com que as pás superpostas de cal no nosso melting point  vão caindo uma a uma até que só reste nós mesmos, pelados, vestidos, beatos, pós-modernos, bregas, incrédulos, sanguinários, festivos e tantos outros opostos que descaradamente vão se intercomplementando sem o menor pudor. Atente para a forma como o nome do posto de Zé Elétrico é grafado.

A trilha sonora de Berna Ceppas, Kassin, Otto e Pupilo compõe o mosaico Recife, São Paulo, Rocha, Idade Média, infoespaço, Beathes, Márcio Greique e Renato e seus Blue Caps.

Como diz o personagem de Zé Celso: “minha filha isso aqui é e não é, mas está sendo.”

             

             



Escrito por Mara às 14h29
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Escrito por Mara às 17h31
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                                                   FRAGMENTOS DE DIÁRIO

 

                                   me descubro e me assusto

                      metade cheio de nada, metade vazio de tudo

 

                       quando gritam atalhos no corpo

                           o medo é maior que a voz do vulcão

 

                        quando vem a vertigem do salto

                           causo desprezo ao vento, riso aos pássaros

 

                        não mais alcanço antigas ejaculações

                        com meus precários dentes sorrindo

 

                    estou cheio de páginas incompletas

                   e toda significação, afeto, desejo, mortos

 

                      hoje não passo de histórias e sobras de sanduíches

                    delírios despejados na porta dos fundos

                                monturo de intranqüilidades

 

                      e tudo não passa da própria vida contando palavras

                       nos bolsos furados da calça

 

                                                 tudo não passa da certeza

                            de que tarde demais me vi descalço

                      com a crueza do clima descascando a pele envilecida

 

 

             Poema de Sandro Ornellas, do livro recém-lançado Trabalhos do Corpo.



Escrito por Mara às 20h33
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Erro de Português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

                    Oswald de Andrade



Escrito por Mara às 20h18
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                                    Se Deus quiser,

          uma dia quero ser índio

                                     viver pelado pintado de verde

                               num eterno domingo. . .                      



Escrito por Mara às 17h36
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Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.


Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.



Escrito por Mara às 17h34
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